PROJETO:


IMPACTO DO PROGRAMA 1 MILHÃO DE CISTERNAS SOBRE A SAÚDE INFANTIL NO SEMIÁRIDO some text

Em países em desenvolvimento, a escassez de água potável é um problema notável e considerado de alto risco. Segundo dados do World Health Organization (WHO) e da United Nations Children’s Fund (UNICEF), cerca de 663 milhões de pessoas no mundo (um em cada dez habitantes) não possuíam acesso a fontes seguras de água em 2015. Essa grande inacessibilidade de fontes seguras vem trazendo problemas relacionados à saúde, principalmente à saúde infantil: a cada noventa segundos, uma criança no mundo morre devido a alguma doença relacionada à qualidade da água.

Esse cenário tem uma forte ligação com a realidade do semiárido brasileiro. Esta região é considerada a região árida mais populosa do mundo, com cerca de 22 milhões de habitantes, sendo 44% residente na área rural, marcada por grandes desigualdades sociais. Um grave problema dessa região tem sido a escassez de água, ocasionada pelos longos períodos de estiagem, deixando vulneráveis as populações sertanejas não apenas quanto ao trato das atividades domésticas e das atividades de agricultura e pecuária familiar, bem como na provisão de água potável.

Visando amenizar os efeitos perversos da seca sobre a vida dos sertanejos, garantido o acesso à água de qualidade para o consumo humano, a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA Brasil) iniciou, em 2001, o Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC). Este programa promove o acesso à água potável através da construção de cisternas de placa ao redor das casas de famílias nas zonas rurais, permitindo a captação de água das chuvas por meio de calhas no telhado das residências. Cada cisterna possui capacidade para o armazenamento de 16.000 litros, volume suficiente para o consumo doméstico (beber e cozinhar) de uma família de até cinco pessoas durante o período de um ano. Além da construção das cisternas, este programa capacita as famílias beneficiadas a realizarem alguns procedimentos para manutenção da qualidade da água. Até 2010, pouco mais de um milhão de pessoas já haviam sido beneficiadas por este programa dentro da região do semiárido.

Apesar da grandeza e relevância desse programa para as famílias da região, nenhum estudo ainda tinha sido realizado com o intuito de avaliar, com rigor estatístico, os reais impactos do P1MC, sobre a saúde infantil nos municípios da região. A equipe do GAPPE examinou os efeitos do tempo de atuação da expansão de acesso à água potável, a partir das cisternas do P1MC, sobre os indicadores de mortalidade infantil por doença diarreica aguda (DDA) na faixa etária de 0 a 4 anos dos municípios do semiárido, durante o período de 2000 a 2010.

Os resultados obtidos mostram clara evidência quanto ao tempo de atuação do P1MC sobre a redução nas taxas de mortalidade infantil por DDA para a faixa etária de 0 a 4 anos, apontando uma redução de 19%, onde o programa atuou por 2 anos, e de 69% nas localidades onde o tempo de atuação foi de 9 anos, quando comparados com a média de mortalidade por DDA que tais municípios apresentavam em 2000. Além disso, o efeito do programa mostrou-se mais forte nos municípios com maior proporção de população rural e com maior expectativa de anos de estudo, além de crescente com o número de cisternas instaladas.